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O Tabuleiro

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  • 25-09-2017 | 15:30h

A INCRÍVEL HISTORIA DE CHE GUEVARA EM ILHÉUS

Por Gerson Marques:

O navio da Costeira havia chegado na madrugada, jogou âncora nas proximidades da entrada da barra, esperou o dia amanhecer, soltou cinco apitos longos e graves entrando na baía do Pontal  com a elegância de um cisne negro, ancorou pouco tempo depois no cais da companhia, o movimento frenético do desembarque começou imediatamente, uma multidão logo se formou na balbúrdia do cais, estivadores, marinheiros, passageiros, pessoas que esperavam parentes, vendedores de pastel, picolé e jornal, carregadores de bagagens oferecendo seus serviços em carrinhos de mãos, e toda fauna humana que habita beiras de cais em qualquer lugar do mundo, pescadores, marujos, prostitutas, meliantes amadores e profissionais.

O ar estava tomado pelo cheiro nauseante da maresia, misturado a peixes, perfumes, suor e charutos, tão intenso que  inebriava os mais sensíveis e gerava reclamações dos mal humorados, isso tudo debaixo de uma chuva fina e um calor abafado.

Passou sem ser notado, carregando uma pequena maleta de couro  marrom, vestido em um surrado terno de linho branco, apesar de alto e jovem, caminhou a passos lentos em direção ao Hotel Coelho, duas quadras de distância do porto, lá escreveu na ficha de hospedagem o nome de Ernesto G. de La Serna, natural da Argentina, 30 anos, médico de profissão.

Do contrário, navio, desembarcou com idêntica discrição, o cidadão americano Porter J. Goss, nome que colocou na ficha de hospedagem do mesmo hotel, preenchida dezessete minutos após o argentino Ernesto.

A Ilhéus de 1956, era pequena mas cosmopolitana cidade, com grande presença de estrangeiros, tanto em sua população fixa como de visitantes, muitos deles atraídos pelos milhões gerados no próspero negócio do cacau.

Os hóspedes estrangeiros do Hotel Coelho, juntaram-se a outros tantos que iam e vinham nas ruas próximas ao cais, a cidade fervilhava logo cedo, o movimento dos poucos automóveis disputava o espaços das ruas com tropas de muares carregando cacau para o cais, a estudantada passava fazendo algazarras, e as lojas começavam a abrir suas portas, já era quente e abafado o início do dia, com sol matinal e chuvas eventuais de verão, nesta época, os libaneses e sírios dominavam o comércio, algumas firmas exportadoras de cacau eram de suíços e outras de grandes empresários de Salvador, os ingleses eram os homens da ferrovia, e os sergipanos vindo de todo nordeste inclusive do sertão baiano, tocavam as bodegas, mercearias, vendas e o negocio de quinquilharias em geral, aos negros cabia o trabalho pesado da estiva e os serviços gerais das roças de cacau nas matas úmidas da região, tudo girava em torno do fruto dourado e do movimento de navios no cais do porto.

O argentino Ernesto, sempre muito discreto era por vezes visto em conversas sisudas com alguns conhecidos da cidade, diziam que eles conversavam sobre política e sindicatos, também se falava que o doutor argentino,  eventualmente fazia exames e aviava receitas de remédios manipulados na Botica do sergipano Aldaségio.

Já o americano Porter ou Mister Porter, como exigia ser chamado era sempre visto em mesas de bares, solitário e beberrão, mas tinha um olhar astuto, sabia observar a paisagem humana e tirar conclusões sociológica do universo em seu arredor, particularmente parecia ter interesse por tudo que o médico argentino fazia, apesar de sua descrição quase invisível.

Certa noite Dr. Ernesto, estava em uma mesa de carteado nyo Cabaré Bataclan, q6uando entrou Mister Poter, sentando em mesa próxima, a fumaça dos muitos charutos, cigarros e cigarrilhas impregnava o ambiente, em outra mesa um grupo de jovens ufanavam das riquezas de suas famílias em vozes altas e muitas gargalhadas, acompanhados por belas putas e bons uísques, o garçom Os mundinho, se virava para atender a todos correndo do balcão para as mesas e vice versa, existiam também outras mesas bem discretas situadas na penumbra do fundo do salão, eram exclusivas de alguns coronéis e suas putas de preferência, as escolhidas, sempre muito tarde. 5x  perfumadas e maquiadas.

Entediado das cartas, Dr. Ernesto inicia uma conversa com uma polaca gaúcha de nome Creusa, havia dois anos tinha chegado para o Bataclan, pouco tempo depois subiram com discrição um longo vão de escadas que ligava o salão a um corredor de quartos no andar de cima, Creusa tinha as chaves do terceiro quarto a esquerda do corredor, abriu e entraram já em abraços e beijos, em movimento rápido o americano Poter também avança escada acima acompanhado da jovem Nubia, uma morena assanhada e desejada que fazia sucesso com os clientes, segundo as más línguas era a preferida de um poderoso coronel de quem ela arrancava muitos e caros presentes, ocuparam um quarto contíguo ao já ocupado pelo doutor e a polaca.

Os acontecimentos seguintes foram narrados pelo garçom Os mundinho, que ainda os repetiu por muitos anos as gerações seguintes de clientes do Bataclan.  Segundo ele, doutor Ernesto estava em vigorosas e barulhentas preliminares com a gaúcha Creusa, enquanto no quarto ao lado o americano mantinha silêncio total, teria contado depois a morena assanhada Nubia, que o gringo não queria saber de chamego nem aconchego, se interessará mesmo pelos ruidosos acontecimentos no quarto de Creusa, em certa hora teria ouvido a gaúcha polaca gritar em tom de exclamação, surpresa e admirada, após tirar as calças do doutor argentino a seguinte frase; “bha tchê, que vara!” isso foi o suficiente para enlouquecer o americano que de súbito apanhou uma arma que levava na cintura, correu em direção ao quarto vizinho, arrombou a porta e gritou em inglês; “Communist son of a bitch! Go to hell!” (comunista filho da puta, va para o inferno), o doutor argentino  que estava nu, porém evidentemente armado… (Sempre que contava essa parte da história o garçom Osmundinho fazia menção de desmaiar, usando adjetivos e gestos exagerados para descrever o tamanho da estrovenga do argentino)… após proferir sua sentença em inglês o americano Poter, atirou em direção ao argentino, salvo pela providencial e mortífera atitude de Creusa que atravessou na frente da bala, a fatalidade criou a oportunidade para o argentino pular da janela do quarto ao telhado da casa vizinha, em seguida em outro telhado, dali para o chão, ganhado um corredor ao lado de baixo da casa de onde pode alcançar a rua, em disparada carreira teria fugido nu em direção ao cais, na escuridão da noite, se  escondeu no porão de um cargueiro de bandeira panamenha, que logo ao amanhecer zarpou com grande carregamento de cacau.

A notícia dos acontecimentos da noite repercutiram fortemente na cidade ao amanhecer, ganhando a manchete principal do jornal vespertino Diário da Tarde, “ Americano atira em argentino armado e acerta em quenga polaca”. Más, quem realmente narrava a história em detalhes para grande audiência por vários dias foi o garçom Osmundinho, sempre com desmaios, suspiros, gestos e adjetivos exagerados.

Passado alguns anos, os ilheense foram surpreendidos com um desdobramento inusitado da noite agitada do Bataclan, as manchetes dos jornais que chegavam nos navios vindos do Rio de Janeiro, trazia a notícia da revolução cubana e nela a foto de um revolucionário de nome Che Guevara, que era ninguém menos que o Dr. Hernesto, aquele desmarcado argentino que fugirá correndo nu pela cidade… Osmundinho o garçom do Bataclan logo mandou pintar um quadro com a foto do revolucionário, e colocou na parede de sua casa, sem nunca ter sido um comunista foi o primeiro a ter um pôster de Che na parede, coisa que seria moda anos mais tarde. 5x mais tarde.

Tarde. e Esta história me foi contada sob segredo de quatro paredes, nos anos oitenta, por Napoleão Marques, dentista e velho comunista ilheense, que tomou muita cerveja com Dr. Ernesto, tendo inclusive emprestado seu consultório para o argentino atender pessoas carentes, sempre fiquei intrigado em saber quem era o americano Porter J. Goss, até descobrir com auxílio do Google, que se tratava de um agente da CIA que teve a missão de matar Che Guevara, tendo quase conseguindo cumpri-la no nosso Bataclan.

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