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  • 23-11-2017 | 09:20h

Politicamente correto

Politicamente correto

Há um ano atrás escrevi um artigo sob o título de: “O protagonismo da Cultura e a visão estrábica do gestor cultural” e recebi, de uma amiga-leitora o seguinte comentário: “Pawlo?, parabéns pelo estudo, por compartilhar suas experiências, análises tão pertinentes para o setor cultural, sempre tratado como algo figurativo pelos gestores públicos. Contudo, me incomoda o uso de um termo capacitista para ilustrar a questão, quando se liga uma doença a uma prática negativa, associando a deficiência à incapacidade de alguém com estrabismo de perceber a cultura de maneira eficaz. Sei que você é um cara inteligente e crítico, capaz de encontrar um sinônimo que não ligue nenhum tipo de doença ou deficiência à incompetência. O Leandro Karnal revelou que reviu o uso do termo "esquizofrênico" em suas palestras após ser chamado a atenção por uma ouvinte. A patrulha do politicamente correto é chata, mas necessária para desconstruirmos preconceitos enraizados em nossa sociedade. Você, enquanto educador, estudioso e visionário sabe como é difícil nos livrarmos de tantos termos naturalizados, mas baseados em sentidos negativos. Abraço!”

Semana passada foi a vez de um outro leitor escrever: “Não entendi seu artigo. Gostaria de encontrar você pra entender sua posição na preservação do meio ambiente e das belezas naturais que fazem parte da beleza de Ilhéus. Obrigado. Um abraço.” Ele se referiu ao artigo “Os Periquitos de Pedro”. 

Tanto a leitora quanto o leitor tiveram impressões e interpretações diferentes do que eu havia escrito. A interpretação é uma questão muito pessoal. É ela que nos faz mais críticos, mais curiosos, mais perspicazes. Sobre a questão do estrabismo usado como metáfora no artigo respondi à leitora que estava longe de mim comparar o problema do desvio ocular a uma ação negativa. Como se isso fosse um erro. O intuito da metáfora estava ligado ao campo direcional. Talvez o estrabismo – disse a ela - não tenha sido uma boa ilustração, mas, saiba que a intenção não é culpar quem possui a deficiência. Pelo contrário - e pode ser também que eu não tenha atentado para isso - os estrábicos conseguem ver muito melhor que nós. Haja visto que a condição não está relacionada à competência. O estrabismo é também um jeito diferente de enxergar as coisas. Pensa que ela se conformou? Respondeu: “O que destaco é a relação política do uso do termo. Quando relacionamos uma doença à incompetência reforçamos o preconceito latente, socialmente naturalizado. Tem quem ache mimimi, porém as palavras representam pensamentos, atitudes, culturas. Por que não se chama mais o negro de crioulo ou a negra de mulata, por exemplo? Com certeza não é pela intenção de quem fala, mas da carga negativa da representação da palavra. Nossa língua viva vai se moldando às políticas que simpatizamos. E eu tenho certeza que você também deseja uma sociedade igualitária, livre de preconceitos, sejam eles explícitos ou implícitos. Obrigada pela educação de sempre em considerar meu ponto de vista e espero que minhas colocações tenham sido positivas. Por te respeitar é que tenho a segurança de discutir a delicadeza do assunto.” 

Depois disso, comecei a me policiar mais. Agora, antes de parafrasear algo como “o cravo brigou com a rosa” ou “atirei o pau no gato”, penso duas vezes. Afinal, não quero ser acusado de defensor da violência contra a mulher, muito menos de ser inimigo dos felinos. Tratei logo de responder ao leitor: “O artigo em nada tem de contrário aos periquitos. Eu, particularmente, amo vê-los chegar no final da tarde: “Eles viraram uma atração à parte”, não é assim que começo o podcast?

Me perdoe, caro leitor, caríssima leitora, se minhas palavras soaram diferentes.

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Pawlo Cidade é escritor e ativista cultural. E-mail [email protected]

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