"A SAÍDA DE ÂNGELO CORONEL DA CHAPA TEM GERADO UM ESTREMECIMENTO ENORME NAS ARTICULAÇÕES POLÍTICAS", AVALIA PROFESSOR CLÁUDIO ANDRÉ
Cientista político analisa relações de confiança, equilíbrio partidário e os reflexos para as bases de Jerônimo Rodrigues e da oposição liderada por ACM Neto
A possível saída do senador Ângelo Coronel da chapa majoritária tem provocado forte tensão nos bastidores da política baiana. A avaliação é do professor e cientista político Cláudio André de Sousa, feita durante entrevista ao programa O Tabuleiro, da rádio Ilhéus FM, nesta sexta-feira (23), a partir de perguntas do comunicador Vila Nova sobre alianças, rearranjos partidários e o cenário eleitoral de 2026.
Ao analisar a reorganização das forças políticas na Bahia, Cláudio André contextualizou o momento atual como resultado de uma mudança estrutural no modo de fazer política no Estado. Ele lembrou que, historicamente, a Bahia viveu longos períodos de forte centralização partidária, citando como exemplo eleições em que toda a chapa era formada por um único partido.
Segundo o professor, esse modelo começou a ser superado a partir de uma lógica de transição construída por lideranças como o senador Jaques Wagner. “Os partidos não podem ter um único, entre aspas, dono. Cada partido tem sua história, sua liderança”, afirmou, destacando que, embora existam zonas de influência, as decisões passaram a ser mais negociadas.
É nesse contexto que se insere a situação de Ângelo Coronel. Para Cláudio André, a simples possibilidade de sua saída da chapa já provoca impacto significativo. “A saída de Ângelo Coronel da chapa tem gerado um estremecimento enorme nas articulações políticas”, afirmou, ressaltando que não se trata de uma decisão imposta. “A sua manutenção, a sua saída é algo negociado, é algo pensado e não uma decisão vertical, construída de maneira unilateral.”
Na avaliação do cientista político, o cenário atual revela um novo equilíbrio de forças na Bahia. “O que está acontecendo, na minha visão? Está ficando cada vez mais equilibrado o jogo político na Bahia”, disse. Segundo ele, esse equilíbrio também impõe desafios à oposição, que ainda não teria compreendido plenamente essa estratégia.
Cláudio André foi crítico ao lembrar a eleição de 2022, citada por Vila Nova. Para ele, a oposição errou ao montar uma chapa sem o equilíbrio político necessário. “A situação da eleição de 2022 foi muito pedagógica”, afirmou, avaliando que a oposição “falha muito” ao não entender a forma como a esquerda construiu suas alianças no Estado.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de Ângelo Coronel não ter espaço na chapa majoritária ao lado do governador Jerônimo Rodrigues, Cláudio explicou que a montagem de chapas envolve um desafio permanente. “É um problema de calibrar o tempo inteiro”, disse, ao destacar a necessidade de representar o interior, os partidos e a diversidade política.
O professor também analisou o peso do Senado na disputa. “O Senado é a casa dos ex-governadores”, afirmou, ao explicar que se trata de um espaço historicamente ocupado por lideranças experientes. Ele lembrou o episódio de 2018, quando a então senadora Lídice da Mata foi retirada da disputa, ressaltando que a decisão foi fruto de uma negociação política liderada pelo PSD em busca de maior equilíbrio na chapa.
Segundo Cláudio André, o Senado tem papel estratégico para o PT no cenário nacional, especialmente na formação do Congresso a partir de 2027. Ele explicou que o partido avalia em quais estados há maior possibilidade de eleger senadores e destacou que a Bahia é vista como um território decisivo. “Então isso tem que ser negociado. É uma situação difícil”, afirmou.
Questionado se Ângelo Coronel estaria hoje na chapa caso tivesse um comportamento semelhante ao do senador Otto Alencar, Cláudio foi direto: “Talvez com a chance de continuidade de 80%.” Para ele, o senador perdeu oportunidades políticas importantes. “Muitos falam nos bastidores de que ele não entrou de corpo e alma na campanha de Jerônimo”, avaliou.
Além disso, Cláudio observou que Coronel abriu diálogo com ACM Neto, o que, embora legítimo, tem repercussões políticas. “Ele toma uma posição de abrir uma negociação com ACM Neto, de dialogar, de conversar. É legítimo, mas passa sinais de que ele não está convencido de que faz parte de um grupo, apesar dos problemas”, disse.
Ao analisar os impactos de uma eventual ausência de Coronel na majoritária, o cientista político ponderou que a eleição ao Senado é fortemente influenciada pela disputa ao governo do Estado. Ele avaliou que o grupo político do senador tem influência em cerca de 15 a 20 municípios, mas destacou que “tudo isso tem que ser pactuado, tudo isso tem que ser pensado”.
Após a análise de Cláudio André, o comunicador Vila Nova também fez uma avaliação própria sobre o impacto político da eventual ausência de Ângelo Coronel na chapa majoritária. Segundo ele, mesmo considerando a influência do senador em municípios do interior, o prejuízo tende a ser limitado. Para Vila Nova, dos cerca de 20 prefeitos ou cidades onde Coronel teria maior influência, a maioria permaneceria alinhada ao governador Jerônimo Rodrigues. “Prefeito de cidade pequena não abandona o governador para marchar”, avaliou, acrescentando que o prejuízo existiria, mas seria pequeno. Para o apresentador, Coronel tem consciência desse cenário e age estrategicamente: “O Coronel é um homem experiente, ele sabe disso. Ele está jogando porque ele precisa jogar”.
Encerrando a análise, Cláudio André ressaltou o peso político do ex-governador Rui Costa, atual ministro da Casa Civil. Segundo ele, trata-se hoje de uma liderança nacional consolidada. “A gente está falando do braço direito do presidente Lula no Planalto”, afirmou, observando que essa correlação de forças é central para compreender o atual momento e as negociações em torno da chapa de 2026.
Confira a entrevista completa:
Deixe seu comentário para "A SAÍDA DE ÂNGELO CORONEL DA CHAPA TEM GERADO UM ESTREMECIMENTO ENORME NAS ARTICULAÇÕES POLÍTICAS", AVALIA PROFESSOR CLÁUDIO ANDRÉ