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"NÓS TEMOS UM DÉBITO HISTÓRICO COM O POVO NEGRO", DECLAROU ENILDA MENDONÇA AO DESTACAR O JULHO DAS PRETAS

"NÓS TEMOS UM DÉBITO HISTÓRICO COM O POVO NEGRO", DECLAROU ENILDA MENDONÇA AO DESTACAR O JULHO DAS PRETAS
Por: Redação O Tabuleiro
Dia 23/07/2026 11h50

Vereadora explicou a importância da iniciativa, apresentou a programação da audiência pública e da feira de empreendedoras e defendeu o fortalecimento das políticas públicas para as mulheres negras

A realização do Julho das Pretas em Ilhéus representa um compromisso com a reparação histórica e com o fortalecimento das políticas públicas voltadas à população negra. A avaliação foi feita pela vereadora Enilda Mendonça durante entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, nesta quinta-feira (23), ao comentar a programação que será realizada nesta sexta-feira (24), na Câmara de Vereadores.

Segundo a parlamentar, o debate promovido todos os anos pelo seu mandato e, agora, pela Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Mulheres, não acontece por obrigação, mas por reconhecer uma dívida histórica com o povo negro, especialmente com as mulheres negras. "Nós tocamos esse debate não por obrigação. Eu acho que é um débito que nós temos com o povo negro. Existe um débito com as mulheres. E o débito parece que aumenta com as mulheres negras."

Enilda afirmou que as mulheres enfrentam dificuldades em todo o país, mas destacou que os desafios são ainda maiores para as mulheres negras. Segundo ela, essa realidade pode ser percebida principalmente ao analisar o mercado de trabalho. "Nós já sabemos de todas as dificuldades de ser mulher no Brasil, na Bahia e em Ilhéus. E, quando você é mulher negra, a dificuldade ainda é maior. Quando você vai olhar o mercado de trabalho, quando você vai analisar onde essas mulheres trabalham, aí você vê, de fato, a diferença."

Por esse motivo, a vereadora defendeu que esse debate continue sendo realizado e anunciou que a programação deste ano terá início às 8h30, com uma audiência pública. Ela fez questão de destacar que a atividade é organizada pela Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Mulheres, composta pelos vereadores Enilda Mendonça, Rúbia Carvalho, Keko, Neto da Saúde e Maurício Galvão.

Enilda lembrou que a Câmara possui apenas duas mulheres e explicou que, para a criação de uma frente parlamentar, é necessária a participação mínima de três vereadores, motivo pelo qual a atuação dos parlamentares homens foi fundamental para manter o grupo em funcionamento.

Ela também agradeceu o apoio recebido neste ano para ampliar a estrutura do evento. "É a primeira vez que a gente tem uma estrutura pela Câmara para poder fazer, para além da audiência pública, do debate histórico, também uma feira com as experiências das mulheres pretas da cidade."

A vereadora agradeceu ao presidente da Câmara, César Porto, pelo apoio à infraestrutura do evento, além das secretarias municipais de Saúde, Promoção Social e de Políticas para as Mulheres, que oferecerão serviços à população. Também citou a participação do Sebrae, que prestará orientação sobre empreendedorismo, da OAB e de outras instituições parceiras.

Durante a audiência pública participarão como palestrantes Luzi Borges, diretora de Políticas para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Povos de Terreiro do Ministério da Igualdade Racial, e a antropóloga Jade Lôbo.

Além do debate, a programação contará com uma homenagem a mulheres negras de Ilhéus que, segundo Enilda, desenvolvem um importante trabalho, mas ainda não possuem grande visibilidade. "Nós procuramos mulheres que estejam aí, que não tenham ainda essa visibilidade. Tem professora, tem médica, mas não são pessoas que estão no dia a dia da política. Essa homenagem é muito simples, porém, para nós, ela é muito simbólica, porque é você fazer um resgate histórico."

Ao falar sobre o significado desse reconhecimento, a vereadora lembrou a resistência histórica do povo negro e afirmou que esse legado inspira seu mandato desde o primeiro dia. "Eu aprendo muito com o povo de terreiro e com o povo preto. A resistência desse povo ao longo da história desse país não é para os fracos. Foram eles que construíram a nossa riqueza, mas tiveram o pior pedaço da história."

Ela destacou ainda que, mesmo não pertencendo aos povos de terreiro, considera seu papel como representante pública defender essas comunidades. "Eu não sou de povo de terreiro, mas eu não preciso ser para poder ser porta-voz, porque eu fui eleita para isso. Nós devemos a esse povo. Então eles têm que ter esses espaços."

Enilda também relacionou o debate à realidade enfrentada pelas mulheres negras ao longo da história, lembrando que muitas criaram os filhos de outras famílias enquanto deixavam os próprios filhos em casa.

Segundo ela, essa desigualdade ainda se reflete na predominância de mulheres negras em determinadas profissões e na pequena presença delas em cargos de chefia. "Quando uma mulher chega e ocupa um espaço, ela não ocupa sozinha. Ela leva todas as outras mulheres. E, quando essa mulher é uma mulher negra, a gente precisa reverenciar e dar todo o suporte, porque ela precisa mostrar todos os dias que é competente. E, quando essa mulher é preta, ela precisa mostrar em dobro."

Durante a entrevista, a vereadora também comentou um comentário publicado nas redes sociais sugerindo que apenas mulheres negras poderiam participar do evento.

Ela classificou a publicação como discriminatória e esclareceu que a programação é aberta a toda a população. "Podem entrar as brancas, os brancos, os pretos e as pretas. O debate é sobre a mulher preta. O comentário existe porque está relacionado a um público específico que é discriminado socialmente."

Para Enilda, o país ainda deve muito respeito e políticas públicas às mulheres negras. "Falta muita política pública voltada para esse povo. A gente precisa fortalecer as políticas afirmativas porque é um dever nosso."

Além da audiência pública, o evento contará com uma Feira de Empreendedoras Negras, das 9h às 17h, reunindo mulheres da agricultura familiar, artesanato, costura, fabricação de velas, produção de geleias e outros empreendimentos.

A programação também oferecerá vacinação, serviços públicos, atendimento de maquiadoras, orientações sobre empreendedorismo e apresentações culturais.

Ao final da entrevista, Enilda convidou a população a participar da programação. "A ideia é fazer um grande dia desse movimento, onde elas serão as protagonistas da história. A gente precisa conhecer mais da história dessas mulheres, incentivar comprando delas e fazer um dia de festa bonito."

Confira a entrevista completa: 

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