A LADEIRA VAI FICANDO MUITO ÍNGREME, CURTA…
Por Nunes de Sousa
Quando passamos dos cinquenta anos, algo silencioso se instala entre os ponteiros do relógio, os dias parecem recolher-se dentro de si mesmos e os olhos, fatigados de paisagens e despedidas, começam a perder não apenas a luz do sol, mas sobretudo a vastidão das luas cheias, essas luas antigas que antes nos atravessavam como orações sem palavras.
Mesmo que ainda carreguemos doçura e leveza no coração, mesmo que não sejamos plenamente felizes nem suficientemente reconhecidos por aqueles que nos são próximos, e de quem esperamos intensidade, amor, gratidão, muito mais do que injúrias, maldades e isolamentos, a ladeira, essa presença discreta e persistente, vai se estreitando, tornando-se mais complexa e íngreme, não tenha dúvidas.
Os desgastes acumulados pelas esperas intermináveis de reconhecimento, bondade e lealdade acabam por se fundir na escuridão de noites que parecem não ter
margem. E, ainda assim, se carregas esse coração leve, disponível às angústias e às melodias densas que nos fazem chorar em segredo, imaginando a imersão do amanhecer seguinte com um brilho equidistante, compreenderás o quanto é essencial aprender a edificar sobre a qualidade do degrau alcançado, e sobre o real significado da dor, e do contraste da manhã seguinte com o amor.
Quando passamos dos sessenta anos, a ladeira abaixo já não é susto nem fronteira, é apenas percurso. Pensamento íngreme é o dos tolos e infelizes que acreditam ser melhores ou mais felizes que João, José ou Joaquim, de alguma esquina qualquer. Nosso destino pode ser severo, e os dias e noites tornam-se ainda mais curtos, enquanto os olhos perdem o brilho do horizonte e a dignidade de um mar em pleno êxito.
As banalidades que nos feriram por anos a fio começam a se dissolver na verdade crua de descer mais um degrau, íngreme e sem pudor. Não há música que ultrapasse essa nova dor. Talvez te julguem soberbo por buscares reconhecimento pela tua
bondade ao longo da vida, mas é preciso entender que a pior soberba reside justamente na ausência dos valores simples: importar-se, abraçar, cuidar, valorizar.
Amar, sem esperar nada em troca. A ladeira sinaliza, mas não avisa. Não explica o fim da imersão, nem revela o que realmente significa ser infinito. Apenas segue, íngreme, enquanto caminhamo
Resposta de Nunes de Sousa
Gratidão àqueles que demonstram respeito e sincronias piticas para com meus escritos... A inteligência maior está no âmago e leveza dos vossos corações que sabem identificar as variáveis da vida e as intensidades de um viver harmônico e leve. Gratidão
★ ★ ★ ★ ★ Em 20-02-2026 às 07-26h 5Resposta de Augusto Henrique
Um espetáculo esse texto que retrata a intensidade de um viver límpido e sensato em sincronia com a variação da vida na sua essência maior ante os degraus infinitos! Parabéns
★ ★ ★ ★ ★ Em 19-02-2026 às 17-31h 5Resposta de Aurelina Nunes Neta
Pura verdade mano,lindo poema
★ ★ ★ ★ ★ Em 18-02-2026 às 11-12h 5Resposta de JACIARA NUNES DE SOUZA ANDRADE
Sou fã da sua clareza/criatividade, meu irmão!
★ ★ ★ ★ ★ Em 17-02-2026 às 11-56h 5