AÇÃO DA AGERBA DURANTE MANIFESTAÇÃO DE PRODUTORES DE CACAU SE ASSEMELHA A PRÁTICA DE SUFOCAR FINANCEIRAMENTE UTILIZADA PELA POLÍCIA E PELA JUSTIÇA
Presidente da ANPC relata pedido para encerrar protestos, aplicação de multas a ônibus e classifica medidas como intimidação em meio à crise da cacauicultura
A presidente da Associação Nacional de Produtores de Cacau (ANPC), Vanuza Barroso, afirmou nesta segunda-feira (02), em entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, que produtores de cacau vêm sofrendo intimidação após manterem manifestações contra a crise enfrentada pelo setor. O programa é conduzido pelo comunicador Vila Nova.
Logo no início da entrevista, Vila Nova destacou o momento delicado da cadeia produtiva, citando o preço de R$ 130 pago pelo cacau na praça, e questionou se procedia a informação de que o governo estadual teria solicitado a suspensão das mobilizações.
Vanuza confirmou. “Sim. Eu estava lá. No dia quatro de fevereiro houve uma reunião devido às mobilizações. No dia 28 de janeiro, tentamos fazer uma interlocução através da prefeita de Gandu, para facilitar essa interlocução junto ao governo do Estado”, relatou.
Segundo ela, após a mobilização, houve reunião com o governador, quando foi criado um grupo de trabalho formado por oito instituições, entre elas a ANPC. “Na parte da tarde fomos para a primeira reunião do grupo de trabalho e, no final das discussões, pediram para que a gente parasse de se manifestar”, afirmou.
A presidente explicou que se posicionou contra o pedido. “Eu, como presidente da associação, me posicionei que não pararíamos de nos manifestar porque não saímos de lá com nada concreto. Se tivéssemos uma solução definida, uma portaria baixada sobre esse cacau que está chegando, já que havia um primeiro navio que tinha chegado, seria diferente. Mas não houve posicionamento concreto sinalizando compromisso real com a crise da cacauicultura”, declarou.
Diante da ausência de medidas efetivas, a categoria decidiu manter os atos. “O que vimos foi um grupo de trabalho e nada saiu dali naquele momento. Por isso nos posicionamos contrários a parar as manifestações.”
Na sequência, Vila Nova questionou se, após a negativa dos produtores, a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (Agerba) teria tentado impedir as mobilizações, citando relatos de ônibus parados e multados durante manifestação realizada em Ilhéus no dia 27 de fevereiro.
Vanuza confirmou os episódios. “O governador pediu para parar, mas não entregou absolutamente nada de garantias. E teve manifestação em Ilhéus, quando ônibus de produtores foram parados e multados em cinco mil reais. Foram dois relatos, inclusive de duas mulheres que fizeram esse desabafo em cima do trio”, disse.
De acordo com ela, as multas somaram R$ 10 mil. “Estamos passando por um momento de crise. Primeiro se pede para não continuar as manifestações. Depois a gente se manifesta de forma ordeira, pacífica, defendendo nossa sobrevivência, e chegam duas multas de cinco mil reais. É uma intimidação, é uma vergonha, é uma loucura”, afirmou.
Durante a entrevista, Vila Nova comparou a situação à prática de sufocar financeiramente organizações criminosas. "É por isso que eu tô dizendo aqui que é uma vergonha. O Estado não pode de maneira nenhuma se comportar dessa forma. São trabalhadores, são produtores de cacau. Eu já falei aqui, quando o cacau tem preço, o comércio gera emprego, vende, a indústria gera mais emprego, gera renda, gera riqueza. E aí a prática de sufocar financeiramente, volto a dizer, é uma prática utilizada pela polícia e pela justiça para traficantes, porque quando você sufoca financeiramente os caras perdem força"
A presidente da ANPC também relatou um episódio ocorrido na reunião do dia 4 de fevereiro que classificou como “horrível”. Segundo ela, após sua negativa em suspender os protestos, um dos integrantes da equipe do governo teria sugerido que os produtores criassem outra entidade.
“Ele disse que, se a presidente da associação estava contrária, caberia aos produtores abrir outra associação e nomear outro presidente. Eu ouvi isso. É uma coisa de maluco”, relatou. “Eu quero respostas concretas. Estamos defendendo os interesses de 126 municípios que vivem do cacau.”
Vanuza questionou o posicionamento das autoridades diante da crise. “Onde estão as autoridades que deveriam estar nos apoiando? Eles nos impõem, nos intimidam e ainda agem de forma financeira contra manifestações de quem está lutando pela sobrevivência”, declarou.
Ela destacou o esforço dos produtores para participar dos atos. “Teve gente que saiu de casa às duas horas da manhã para vir a Ilhéus, deixando seus afazeres, suas lavouras. Deveríamos estar produzindo, enquanto eles fazem política pública, mas estamos gritando, nos desgastando, perdendo dia de trabalho”, afirmou.
Produtora com propriedade na Bahia desde 2019 e residente em Minas Gerais, Vanuza reforçou que não aceitará o que classificou como desrespeito ao setor. “Este momento não é de silêncio. É de fazer ecoar a voz do produtor de cacau em todas as instâncias”, concluiu.
Confira a entrevista completa:
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