ADVOGADO DA FAMÍLIA DE ADRIELE, MORTA APÓS CIRURGIA EM ILHÉUS, QUESTIONA CAUSA DO ÓBITO E ANUNCIA NOVAS DENÚNCIAS CONTRA MÉDICO
Nery Santana afirma que família busca esclarecer as circunstâncias da morte da empresária e pretende aguardar laudo do IML antes de definir medidas nas esferas criminal e civil
O advogado Nery Santana, que representa a família da empresária Adriele da Silva Pinto, de 31 anos, afirmou nesta quinta-feira (27), durante entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, que pretende aprofundar a apuração sobre as circunstâncias da morte da paciente após procedimentos estéticos realizados no Hospital Vida, em Ilhéus. O advogado também anunciou que pretende formalizar novas denúncias contra o cirurgião plástico Rossini Tebaldi Ruback.
Segundo Nery, Adriele era natural de um vilarejo na zona rural de Ituberá. Ela teria se mudado para os Estados Unidos, onde viveu por cinco anos, conseguiu o green card, abriu uma empresa e construiu relações no país. O advogado relatou que ela havia retornado ao Brasil em junho e não pretendia voltar a morar nos Estados Unidos.
De acordo com o relato apresentado pelo advogado, o objetivo de Adriele era trabalhar no Brasil, permanecer mais próxima da mãe e realizar o sonho de comprar um terreno e construir uma casa para ela.
Ainda segundo Nery, Adriele teria conhecido o médico após uma indicação recebida em uma academia em Ituberá. Ela teria realizado os exames pré-operatórios antes de dar início ao procedimento.
HORAS DE ESPERA E FALTA DE INFORMAÇÕES
O advogado contou que Adriele chegou ao hospital por volta das 7h30 e entrou no centro cirúrgico às 10h. A previsão inicial era de que o procedimento terminasse às 15h. Posteriormente, a família teria sido informada de que a cirurgia se estenderia até as 18h.
Nery afirmou que, depois das 18h, as informações teriam se tornado cada vez mais escassas. Familiares e amigos buscavam notícias sobre o estado da empresária, mas, de acordo com o advogado, não recebiam respostas claras.
“Passou 18, passou 19. Aí depois alguém falou assim: senhora, às 20 horas vai terminar. E nunca terminava”, relatou.
Segundo o advogado, depois das 20h, a família teria permanecido sem novas informações. Nery citou que passaram 21h, 22h e 23h sem que os familiares recebessem notícias sobre Adriele.
A comunicação da morte ocorreu por volta de meia-noite e alguns minutos, quando, segundo o advogado, alguém da equipe informou à tia da empresária que ela havia morrido.
Nery afirmou que a família não teria recebido, naquele momento, uma explicação detalhada sobre o que havia acontecido.
Para o advogado, a forma como a informação foi transmitida também precisa ser analisada. Ele defendeu que, diante de uma morte, os familiares devem receber atendimento humanizado.
“A saúde principalmente tem que ter um atendimento humanizado, principalmente pós-morte para os familiares. A pessoa vai, mas a família fica, e é a família que sofre”, afirmou.
PORTAS FECHADAS E ACESSO AO CENTRO CIRÚRGICO
Após receber a notícia, segundo o advogado, a tia de Adriele telefonou para um irmão, que também é tio da empresária, pedindo que ele fosse ao hospital.
Nery não informou o horário exato em que o tio chegou à unidade, mas relatou que, quando ele chegou, teria tentado entrar no hospital e encontrado as portas fechadas.
Segundo o advogado, o homem bateu em diferentes portas e ouviu que não havia ninguém no local.
A família, então, teria mantido contato telefônico com a tia que permanecia dentro da unidade e orientado que ela não desligasse o telefone enquanto eles tentavam chegar até ela.
De acordo com o advogado, o tio acabou arrombando uma porta e, depois, uma porta de vidro. Foi nesse momento, segundo o relato, que ele teria chegado ao centro cirúrgico e encontrado Adriele sobre uma maca, dentro de um saco utilizado para acondicionamento e transporte de cadáveres.
O advogado afirmou ainda que, segundo a versão da família, a equipe médica já havia deixado o local. Ele relatou que o médico teria saído da unidade pouco antes da chegada do tio e que não houve contato entre os dois.
QUESTIONAMENTOS SOBRE A ESTRUTURA DO HOSPITAL
Durante a entrevista, Nery também foi questionado sobre a estrutura do Hospital Vida para a realização do procedimento.
O advogado afirmou que, segundo informações que chegaram à família por meio da imprensa e de pessoas que já trabalharam na unidade, o hospital teria estrutura física para receber uma UTI, mas não sabia se a unidade estaria ativada.
“Está sendo investigado, se tinha profissionais da UTI ali. Porque se tem UTI e não tem profissionais para UTI, de nada adianta”, declarou.
Nery ressaltou que ainda não possui essa informação de forma conclusiva. Segundo ele, o prontuário médico também não teria sido disponibilizado à família e, conforme relatou, a obtenção do documento dependeria de medida judicial.
GUIA DE SEPULTAMENTO
Outro ponto levantado durante a entrevista foi a documentação relacionada à morte.
Segundo Nery, a guia de sepultamento foi emitida por um profissional diferente do médico que realizou a cirurgia. O advogado afirmou que o médico responsável pelo procedimento não teria sido o profissional que constatou a morte de Adriele.
Ao comentar a documentação, Nery disse ter começado a questionar a causa indicada após tomar conhecimento de que o quadro teria sido relacionado a um superaquecimento do corpo.
Segundo ele, Adriele não apresentava problemas de saúde conhecidos. O advogado afirmou que acompanhou informações sobre o estado da empresária antes da cirurgia e que ela praticava atividade física e não apresentava queixas de saúde.
CAUSA DA MORTE SERÁ QUESTIONADA
O Hospital Vida informou, em nota, que a paciente morreu durante procedimento cirúrgico em decorrência de uma complicação rara e grave associada à anestesia, relacionada a uma possível predisposição genética. A unidade afirmou ainda que a equipe adotou protocolos de emergência, administrou medicamentos e disponibilizou suporte, incluindo uma vaga em UTI, mas não conseguiu reverter o quadro.
O médico Rossini Tebaldi Ruback também afirmou que, na fase final da cirurgia, Adriele apresentou alteração grave e inesperada e que a equipe de anestesiologia identificou sinais compatíveis com hipertermia maligna.
Nery, entretanto, disse que a causa precisa ser investigada. Ele ponderou que não está afirmando que o diagnóstico apresentado seja falso, mas considera necessário verificar se ele corresponde ao que efetivamente aconteceu.
“Eu não estou dizendo que tenha sido isso que aconteceu, não vou ser leviano, mas é muito raso para alguém que está com a sua saúde em dia”, afirmou.
Para o advogado, não se deve antecipar uma conclusão sobre quem seria responsável pela morte. “Para que não seja atribuído a alguém de forma leviana a morte de alguma pessoa”, disse.
HISTÓRICO DE DENÚNCIAS
Durante a entrevista, Nery também falou sobre relatos de outras pacientes que procuraram o advogado após a repercussão do caso.
Segundo ele, várias pessoas entraram em contato pelas redes sociais e relataram problemas após procedimentos realizados pelo médico. O advogado afirmou ter recebido relatos e imagens de pacientes que, segundo ele, apresentariam deformidades em diferentes partes do corpo após cirurgias.
Nery citou ainda uma página na internet denominada “Vítima de Dr. Rossini”, que, segundo ele, reúne depoimentos de mulheres. Também afirmou que existem processos judiciais relacionados a pacientes, muitos deles em segredo de Justiça por envolverem informações pessoais e imagens de cirurgias.
As denúncias mencionadas remontam a 2023, quando pacientes relataram complicações após cirurgias realizadas pelo médico no Rio de Janeiro e em cidades da Bahia. Na época, a defesa de Rossini afirmou que as acusações eram falsas e que ele jamais havia sido condenado judicialmente por conduta médica irregular.
Sobre a situação atual, o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) informou que não há processo ético-profissional em tramitação no Tribunal de Ética Médica que cite o médico responsável pelo procedimento realizado em Adriele. O conselho também esclareceu que os resultados de denúncias anteriores foram comunicados às partes envolvidas, sob o sigilo previsto no Código de Processo Ético-Profissional.
NOVAS DENÚNCIAS E LAUDO DO IML
Nery afirmou que pretende formalizar novas denúncias e buscar o envolvimento de órgãos das esferas regional, estadual e federal. Ele também pediu que outras pessoas que tenham sido pacientes do médico e se considerem vítimas procurem seus advogados para formalizar denúncias.
O advogado disse ainda que mantém contato com outras pacientes que se colocaram à disposição para prestar depoimentos, inclusive judicialmente, sobre os respectivos pós-operatórios.
“Várias pessoas entraram em contato comigo, testemunhando e se colocando à disposição para testemunhar, inclusive em juízo, sobre o pós-operatório”, afirmou.
Sobre o caso de Adriele, o advogado disse que a família aguardará o laudo do Instituto Médico Legal (IML), cujo prazo informado por ele é de até 30 dias. A intenção é comparar o documento com o laudo produzido pelo hospital e buscar avaliações de outros profissionais experientes da área.
“Nós iremos esperar o laudo do Instituto Médico Legal, que é um prazo de até 30 dias. Vamos esperar, vamos fazer o comparativo com o laudo do hospital e iremos pedir opinião externa de outros profissionais experientes que trabalham na área”, declarou.
Segundo Nery, somente depois dessa análise será possível avaliar se houve negligência médica, se existe responsabilidade do hospital ou de outros envolvidos e quais medidas poderão ser adotadas nas esferas criminal e civil.
O advogado também afirmou que pretende adotar medidas administrativas para formalizar denúncias junto aos órgãos de medicina. Ele destacou que o objetivo é esclarecer as circunstâncias da morte e evitar que, caso sejam identificadas irregularidades, situações semelhantes ocorram com outras pacientes.
Confira a entrevista completa:
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