ALISSON GONÇALVES CRITICA PRECONCEITO CONTRA O NORDESTE E DESTACA FORÇA ECONÔMICA DA REGIÃO
Superintendente da SDE afirma que a imagem de pobreza associada aos nordestinos não representa a realidade atual e defende políticas públicas para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades
O superintendente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE), Alisson Gonçalves, criticou os ataques xenofóbicos direcionados à população nordestina durante o segundo turno das eleições presidenciais. Em entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, nesta sexta-feira (23), ele afirmou que o Nordeste passou por transformações econômicas e sociais nas últimas duas décadas e não pode continuar sendo retratado apenas como uma região de fome, pobreza e dependência de programas sociais.
Para Alisson, os ataques desconsideram as mudanças ocorridas nos estados nordestinos, impulsionadas, segundo sua avaliação, por políticas públicas, investimentos e medidas de inclusão social. Ele lembrou que a região historicamente enfrentou problemas como a desnutrição infantil e a falta de oportunidades, mas afirmou que o cenário atual é diferente. “Nós não somos mais o Nordeste deles, de Sarney, de Collor para trás”, declarou, ao comparar a realidade atual com períodos anteriores da história brasileira.
O superintendente também questionou a imagem de que o Nordeste sobreviveria basicamente de benefícios sociais. Para ele, essa visão ignora a capacidade produtiva da região, seu mercado consumidor e as riquezas geradas por diferentes setores da economia.
Bolsa Família e o papel dos pequenos negócios
Ao abordar o impacto dos programas sociais na economia, Alisson citou o Bolsa Família e afirmou que os recursos movimentados pelo benefício também chegam aos pequenos estabelecimentos comerciais, responsáveis por atender diretamente a população nos bairros.
Ele mencionou mercados de bairro, farmácias e outros negócios que desempenham papel importante na geração de empregos e na circulação de dinheiro nas comunidades. Segundo o superintendente, esses estabelecimentos atendem especialmente pessoas que recebem benefícios sociais, aposentadorias e salários mais baixos, para quem o deslocamento até grandes centros comerciais pode representar uma dificuldade adicional.
Alisson citou como exemplo pequenos mercados de bairros de Ilhéus, como Nelson Costa, Conquista, Parque Infantil, Teotônio Vilela e Nossa Senhora da Vitória. Ele também relembrou uma experiência pessoal para explicar a importância desses estabelecimentos, que permanecem abertos em domingos, feriados e horários em que outros comércios não funcionam.
Na avaliação dele, o dinheiro destinado aos programas sociais não deve ser analisado apenas como uma transferência de renda, mas também pelo efeito que produz na economia local, especialmente nos pequenos negócios.
O superintendente afirmou que, dos R$ 159,5 bilhões destinados nacionalmente ao Bolsa Família, cerca de R$ 80 bilhões seriam direcionados ao Nordeste. Ele relacionou esses valores ao tamanho da população regional, estimada por ele em aproximadamente 60 milhões de pessoas.
O comunicador Vila Nova chamou atenção para o número de famílias que deixaram o programa Bolsa Família após ingressaram o mercado de trabalho. A jornalista Aline Cardoso destacou que, entre março de 2023 e 2026, cerca de cinco milhões de famílias, equivalentes a 15 milhões de pessoas, teriam deixado o programa. Para Alisson, esses dados devem ser divulgados e compreendidos como parte da discussão sobre a inclusão social e a ampliação da autonomia econômica das famílias.
Nordeste tem mercado consumidor e potencial industrial
Ao defender que a região seja reconhecida por sua capacidade econômica, Alisson apresentou números referentes a 2025 e destacou o tamanho do mercado consumidor nordestino, estimado por ele em aproximadamente R$ 1,3 trilhão.
Segundo o superintendente, o Nordeste responde por cerca de 14,8% da riqueza produzida no país. Ele argumentou que esse mercado representa uma oportunidade para empresários e investidores interessados em ampliar seus negócios. “Além de infraestrutura, além de incentivos, benefícios e alívio na carga tributária, o empresário, o empreendedor precisa de mercado e o Nordeste é um mercado consumidor elevadíssimo”, afirmou.
Alisson também destacou o potencial da região na produção de energias renováveis, citando as fontes eólica e solar, além das discussões sobre o hidrogênio verde e a descarbonização da indústria.
Na avaliação dele, o Nordeste reúne condições para ampliar sua participação em setores estratégicos da economia brasileira. O superintendente também mencionou a indústria automotiva, a produção agropecuária e o potencial relacionado às terras raras como áreas relevantes para o desenvolvimento regional.
Ele citou ainda a Bahia Farm Show, realizada no oeste baiano, como exemplo da dimensão do agronegócio e da importância dos investimentos e do apoio do poder público para viabilizar iniciativas econômicas.
Estado deve atuar para reduzir desigualdades
Durante a entrevista, Alisson defendeu a atuação do Estado na indução do desenvolvimento econômico. Ele afirmou que não considera adequados os modelos que defendem tanto um Estado máximo quanto um Estado mínimo e argumentou que o poder público deve atuar para diminuir desigualdades e criar condições para que diferentes regiões tenham acesso a investimentos.
Para o superintendente, o desenvolvimento não depende exclusivamente da iniciativa privada. Ele citou incentivos fiscais, infraestrutura e políticas públicas como instrumentos utilizados para atrair empreendimentos e gerar empregos.
Alisson também relacionou a atuação estatal à necessidade de equilibrar oportunidades entre pessoas de diferentes condições econômicas. Segundo ele, o local de nascimento e a renda familiar influenciam o acesso à educação e às possibilidades de ascensão social.
Ao abordar o tema, comparou as oportunidades de estudantes da rede privada com as de alunos de escolas públicas e afirmou que discutir meritocracia sem considerar essas diferenças pode ser injusto. “O grande mal é de quem se propõe a presidir uma nação, a governar um Estado, a governar um município [...] não o fazer para criar condições mínimas de igualdade entre o que nasceu rico e o que nasceu pobre”, declarou.
Ele defendeu que as políticas públicas contribuam para diminuir essas distâncias, sem considerar que nascer em uma família rica ou pobre seja, por si só, uma escolha individual.
Distrito industrial de Luís Eduardo Magalhães
Ao tratar da atividade econômica na Bahia, Alisson apresentou dados do distrito industrial de Luís Eduardo Magalhães, no oeste do estado, com informações disponíveis até julho de 2026.
Segundo ele, o distrito contava com 44 empresas em operação e 25 projetos implantados, responsáveis pela geração de aproximadamente 2.423 empregos e por investimentos da ordem de R$ 1,54 bilhão.
O superintendente acrescentou que havia previsão de implantação de outros 11 projetos, com expectativa de gerar mais 405 empregos diretos e investimentos estimados em R$ 277 milhões.
Alisson atribuiu esses resultados à combinação entre iniciativa empresarial e atuação do poder público. Ele destacou os programas de diferimento do ICMS e afirmou que a política de incentivos fiscais pode contribuir para a instalação de empreendimentos em diferentes municípios.
Na avaliação dele, a atração de investimentos não deve ser explicada exclusivamente pelo posicionamento político de uma cidade, mas também pelas condições econômicas oferecidas, pela segurança para os negócios e pelas políticas de desenvolvimento implementadas pelo Estado.
Combate à desinformação e valorização da história regional
Ao longo da entrevista, Alisson também criticou a circulação de conteúdos falsos e a reprodução de estereótipos sobre o Nordeste. Ele defendeu que a população tenha acesso a informações que permitam compreender a história da região e as transformações ocorridas nas últimas décadas.
O superintendente recomendou a leitura do livro A Invenção do Nordeste e Outras Artes, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, como referência para compreender a construção histórica da imagem nordestina.
Segundo ele, a associação da região à pobreza também precisa ser analisada a partir das decisões políticas e econômicas que concentraram investimentos em determinadas áreas do país. Alisson argumentou que o Nordeste não escolheu ficar à margem do desenvolvimento e que as desigualdades regionais estão relacionadas às decisões de governos e grupos historicamente dominantes.
Ele também afirmou que a desinformação dificulta o entendimento sobre políticas públicas e defendeu que gestores e comunicadores apresentem dados em linguagem acessível. “Comunicação não é o que eu digo, é o que o outro entende”, afirmou, ao destacar a importância de traduzir informações econômicas e administrativas para que a população consiga compreender seus efeitos na vida cotidiana.
Alisson abordou também a participação popular no processo eleitoral e afirmou que as redes sociais e a mobilização de jovens e outros setores da sociedade passaram a ter maior relevância na campanha. Ele também citou programas e políticas públicas relacionados à educação, à saúde, à habitação, ao combate à fome e ao acesso à energia como exemplos de iniciativas que, na avaliação dele, devem ser consideradas na comparação entre diferentes governos.
Ao retomar a discussão sobre o Nordeste, o superintendente defendeu que a região seja reconhecida para além de suas belezas naturais e de sua história de desigualdades, com atenção à capacidade de trabalho da população, à produção de riquezas e ao potencial de desenvolvimento econômico e social.
Confira a entrevista completa:
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