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EXCLUSIVO: ENQUANTO PRODUTORES DE CACAU DO SUL DA BAHIA SÃO ESMAGADOS POR PREÇOS BAIXOS, INDÚSTRIA MOAGEIRA EMBARCA MANTEIGA DO FRUTO POR MAIS DE US$ 21 MIL A TONELADA PARA A ÁSIA

EXCLUSIVO: ENQUANTO PRODUTORES DE CACAU DO SUL DA BAHIA SÃO ESMAGADOS POR PREÇOS BAIXOS, INDÚSTRIA MOAGEIRA EMBARCA MANTEIGA DO FRUTO POR MAIS DE US$ 21 MIL A TONELADA PARA A ÁSIA
Por: Redação O Tabuleiro
Dia 25/03/2026 12h45

Dados obtidos pelo comunicador Vila Nova, da Rádio Ilhéus FM e do site O Tabuleiro, revelam contradição brutal na cadeia produtiva do cacau brasileiro. Enquanto o produtor rural amarga preços defasados no campo, as indústrias moageiras registram lucros re

A indústria moageira de cacau instalada no Brasil, que detém o poder de processamento das amêndoas e concentra boa parte da margem de lucro da cadeia, opera sob um modelo que especialistas e lideranças comunitárias do sul da Bahia classificam como “estratégia de asfixia”. Em meio a uma safra que enfrenta os desafios climáticos e a sombra da vassoura-de-bruxa, os cacauicultores – especialmente os de base familiar na região cacaueira da Bahia – denunciam a imposição de preços aquém do mercado internacional, enquanto as indústrias locais se beneficiam de uma disparada nos derivados.

O repórter e comunicador Vila Nova, uma voz ativa na cobertura do agronegócio regional pelo programa na Rádio Ilhéus FM e pelo portal O Tabuleiro, divulgou com exclusividade dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) que expõem a fragilidade do argumento industrial.

“Enquanto as indústrias alegavam que não podiam pagar mais ao produtor porque o consumo mundial estaria em queda, o que vimos em 2025 foi uma corrida atrás de novos mercados com margens exorbitantes”, detalhou Vila Nova. Segundo o levantamento, o Brasil exportou 530 toneladas de manteiga de cacau para um país asiático que historicamente não figurava como grande comprador do produto brasileiro. O negócio movimentou US$ 11,3 milhões, o que equivale a mais de US$ 21,3 mil por tonelada (cerca de R$ 110 mil por tonelada, considerando a cotação atual).

O valor obtido pelas indústrias no mercado externo contrasta violentamente com a realidade vivenciada nas roças do sul da Bahia. Durante boa parte de 2025, os cacauicultores da região receberam valores entre R$ 7,5 mil e R$ 9 mil por tonelada de amêndoa bruta. Enquanto a indústria fatura mais de R$ 100 mil na exportação de um derivado de alto valor agregado (a manteiga), o produtor, que arca com os custos de colheita, manejo e os riscos da lavoura, recebe menos de 10% desse montante.

“O argumento de que o preço do cacau pago em 2025 diminuiu o consumo cai por terra”, afirma Vila Nova. “A indústria não está sofrendo com a falta de demanda. Ela está redirecionando seus fluxos para mercados que pagam preços premium, mas na hora de negociar com quem planta, o discurso é sempre de crise.”

A estratégia comercial denunciada evidencia uma prática histórica na cadeia do cacau brasileiro: a assimetria de informações e de poder. Enquanto os produtores ficam reféns da cotação “porta de fazenda” imposta pelos grandes moageiros e intermediários, as indústrias diversificam seu portfólio de exportação, absorvendo sobras de mercado para produzir derivados (manteiga, licor e torta ) que alcançam cotações estelares no exterior.

O setor moageiro no Brasil é altamente concentrado. Poucas empresas processam a maior parte da amêndoa produzida no país. Essa concentração permite que, em momentos de alta do mercado externo, os lucros fiquem retidos no setor de processamento, enquanto o produtor primário é pressionado por custos crescentes (insumos, frete) e remuneração estagnada.

Na região do sul da Bahia, berço do cacau de origem e onde milhares de famílias dependem da lavoura, a insatisfação tem crescido. A notícia divulgada por Vila Nova na Rádio Ilhéus FM e no O Tabuleiro já circula entre associações de produtores, que cobram maior transparência nas relações comerciais e a criação de mecanismos que vinculem o preço pago ao produtor aos reais ganhos da indústria com os derivados.

No entanto, os números da balança comercial expostos pela reportagem mostram que, quando há interesse comercial, o Brasil tem plenas condições de colocar seus derivados no mercado asiático com as melhores cotações globais, o que reforça a tese de que a margem existe, mas fica concentrada nos centros de processamento, sem chegar ao pé do pé de cacau.

A exclusividade do comunicador Vila Nova expõe um modelo de negócio que transforma o produtor de cacau do sul da Bahia em mero financiador de uma cadeia produtiva onde ele assume todos os riscos climáticos e fitossanitários, enquanto a indústria moageira colhe os frutos da valorização dos derivados no mercado internacional.

Para os cacauicultores, a mensagem é clara: enquanto houver a falta de políticas de transparência e a manutenção do oligopólio da moagem, o “boom” dos preços do chocolate no mundo será apenas uma miragem distante para quem vive da terra.

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