EXCLUSIVO: ENQUANTO PRODUTORES DE CACAU DO SUL DA BAHIA SÃO ESMAGADOS POR PREÇOS BAIXOS, INDÚSTRIA MOAGEIRA EMBARCA MANTEIGA DO FRUTO POR MAIS DE US$ 21 MIL A TONELADA PARA A ÁSIA
Dados obtidos pelo comunicador Vila Nova, da Rádio Ilhéus FM e do site O Tabuleiro, revelam contradição brutal na cadeia produtiva do cacau brasileiro. Enquanto o produtor rural amarga preços defasados no campo, as indústrias moageiras registram lucros re
A indústria moageira de cacau instalada no Brasil, que detém o poder de processamento das amêndoas e concentra boa parte da margem de lucro da cadeia, opera sob um modelo que especialistas e lideranças comunitárias do sul da Bahia classificam como “estratégia de asfixia”. Em meio a uma safra que enfrenta os desafios climáticos e a sombra da vassoura-de-bruxa, os cacauicultores – especialmente os de base familiar na região cacaueira da Bahia – denunciam a imposição de preços aquém do mercado internacional, enquanto as indústrias locais se beneficiam de uma disparada nos derivados.
O repórter e comunicador Vila Nova, uma voz ativa na cobertura do agronegócio regional pelo programa na Rádio Ilhéus FM e pelo portal O Tabuleiro, divulgou com exclusividade dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) que expõem a fragilidade do argumento industrial.
“Enquanto as indústrias alegavam que não podiam pagar mais ao produtor porque o consumo mundial estaria em queda, o que vimos em 2025 foi uma corrida atrás de novos mercados com margens exorbitantes”, detalhou Vila Nova. Segundo o levantamento, o Brasil exportou 530 toneladas de manteiga de cacau para um país asiático que historicamente não figurava como grande comprador do produto brasileiro. O negócio movimentou US$ 11,3 milhões, o que equivale a mais de US$ 21,3 mil por tonelada (cerca de R$ 110 mil por tonelada, considerando a cotação atual).
O valor obtido pelas indústrias no mercado externo contrasta violentamente com a realidade vivenciada nas roças do sul da Bahia. Durante boa parte de 2025, os cacauicultores da região receberam valores entre R$ 7,5 mil e R$ 9 mil por tonelada de amêndoa bruta. Enquanto a indústria fatura mais de R$ 100 mil na exportação de um derivado de alto valor agregado (a manteiga), o produtor, que arca com os custos de colheita, manejo e os riscos da lavoura, recebe menos de 10% desse montante.
“O argumento de que o preço do cacau pago em 2025 diminuiu o consumo cai por terra”, afirma Vila Nova. “A indústria não está sofrendo com a falta de demanda. Ela está redirecionando seus fluxos para mercados que pagam preços premium, mas na hora de negociar com quem planta, o discurso é sempre de crise.”
A estratégia comercial denunciada evidencia uma prática histórica na cadeia do cacau brasileiro: a assimetria de informações e de poder. Enquanto os produtores ficam reféns da cotação “porta de fazenda” imposta pelos grandes moageiros e intermediários, as indústrias diversificam seu portfólio de exportação, absorvendo sobras de mercado para produzir derivados (manteiga, licor e torta ) que alcançam cotações estelares no exterior.
O setor moageiro no Brasil é altamente concentrado. Poucas empresas processam a maior parte da amêndoa produzida no país. Essa concentração permite que, em momentos de alta do mercado externo, os lucros fiquem retidos no setor de processamento, enquanto o produtor primário é pressionado por custos crescentes (insumos, frete) e remuneração estagnada.
Na região do sul da Bahia, berço do cacau de origem e onde milhares de famílias dependem da lavoura, a insatisfação tem crescido. A notícia divulgada por Vila Nova na Rádio Ilhéus FM e no O Tabuleiro já circula entre associações de produtores, que cobram maior transparência nas relações comerciais e a criação de mecanismos que vinculem o preço pago ao produtor aos reais ganhos da indústria com os derivados.
No entanto, os números da balança comercial expostos pela reportagem mostram que, quando há interesse comercial, o Brasil tem plenas condições de colocar seus derivados no mercado asiático com as melhores cotações globais, o que reforça a tese de que a margem existe, mas fica concentrada nos centros de processamento, sem chegar ao pé do pé de cacau.
A exclusividade do comunicador Vila Nova expõe um modelo de negócio que transforma o produtor de cacau do sul da Bahia em mero financiador de uma cadeia produtiva onde ele assume todos os riscos climáticos e fitossanitários, enquanto a indústria moageira colhe os frutos da valorização dos derivados no mercado internacional.
Para os cacauicultores, a mensagem é clara: enquanto houver a falta de políticas de transparência e a manutenção do oligopólio da moagem, o “boom” dos preços do chocolate no mundo será apenas uma miragem distante para quem vive da terra.
Resposta de João Raimundo Henking de Souza
Os produtores precisão se organizar através da ANPC.
★ ★ ★ ★ ★ Em 25-03-2026 às 17-49h 5