JORGE AMADO DAS MULHERES
Por Ramayana Vargens
Dez de agosto de 2026. Dia de São Lourenço, protetor dos pobres e padroeiro dos cozinheiros. Jorge Amado completaria 114 anos, enquanto sua literatura faz 95 anos (bodas de sândalo). A simbologia da data corresponde, adequadamente, à essência da obra e visão de mundo do grande autor baiano.
Seus romances primam em colocar, como protagonistas, personagens que representam a gente pobre e humilde (mas corajosa e libertária) do povo da Bahia. Povo de Iroko ou Nzara Kitembo, Orixá do Tempo (São Lourenço na religiosidade de matriz africana). E, se concordarmos com Oswald de Andrade, para quem um escritor é uma espécie de “cozinheiro das almas deste mundo”, Jorge Amado é um talentoso especialista em bons temperos.
Por sua vez, o sândalo, madeira resistente, de aroma delicado e inebriante, sugere a sensibilidade das tramas dmadianas e as sutilezas de sua linguagem saborosa. Fragrância doce, que se mistura ao cheiro marcante de cravo e canela.
Aliás, o aniversário de Jorge, no contexto de hoje, é ocasião oportuna para lembrar que a especiaria mais excepcional em sua obra é a presença feminina.
Amado é pai de uma galeria notável de mulheres épicas, capazes de transformar a realidade e renovar as esperanças na construção de uma sociedade mais justa e humana. São criaturas, corajosas e desafiadoras, que sabem o que querem e o que devem fazer. Mulheres que enfrentam as desigualdades e a oapressão machista, transgredindo,com firmeza, as normas impostas pelo autoritarismo dos preconceitos masculinos. Gabriela, Dora, Dona Flor, Ester, Tieta, Teresa Batista, Bernarda, Coroca, Margot, Julieta, e tantos outras, são exemplos de luta e resiliência no mundo dos homens maus. Mulheres que sabem lutar para encontrar caminhos e desvios que levem à liberdade que todos merecem.
Jorge Amado é um humanista, feminista, apaixonado pela grandeza que a mulher representa.
Se Jorge fosse vivo, e ainda ativo na escrita, certamente, retrataria com a crítica de sua arte essa terrível onda de feminicídios e de violência contra as mulheres. Talvez, Zélia até sugerisse uma poderosa personagem com o nome de Maria da Penha.
Ramayana Vargens
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