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MILTON ANDRADE DEFENDE REAPROXIMAÇÃO ENTRE PRODUTORES E INDÚSTRIA E CRITICA DESÁGIO NO CACAU

MILTON ANDRADE DEFENDE REAPROXIMAÇÃO ENTRE PRODUTORES E INDÚSTRIA E CRITICA DESÁGIO NO CACAU
Por: Redação O Tabuleiro
Dia 27/08/2026 17h40

Secretário de Agricultura e Pesca de Ilhéus afirma que cadeia produtiva precisa retomar o diálogo e considera deságio uma das formas mais humilhantes de remuneração do produtor

O secretário municipal de Agricultura e Pesca de Ilhéus, Milton Andrade, defendeu uma reaproximação entre produtores de cacau e a indústria e criticou o deságio aplicado ao produto. A declaração ocorreu nesta quinta-feira (27), durante entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, após o comunicador Vila Nova questionar se a participação na ExpoCacau poderia causar constrangimento diante das manifestações recentes de produtores de cacau e da defesa feita por representantes do município em favor da categoria.

Milton afirmou que não vê constrangimento em participar do evento e destacou que a feira, promovida pelo CocoaAction Brasil, ligado à World Cocoa Foundation, apresenta tecnologias e informações para a cadeia produtiva.

Para o secretário, é necessário separar a realização de um evento voltado ao desenvolvimento e à apresentação de tecnologias das divergências existentes entre produtores e indústria.

“O cacau viveu muito, muito tempo parado no tempo. Com tecnologia, a Ceplac fez um grande trabalho. Depois, quando veio o declínio da Ceplac, naturalmente, a gente teve o declínio da introdução de tecnologia aqui em nossa região”, afirmou.

Milton avaliou que o cacau precisa acompanhar o avanço tecnológico observado em outras cadeias produtivas. Ele citou os setores de grãos, café e laranja como exemplos de atividades que avançaram nesse aspecto.

O secretário também destacou a forte oscilação das cotações do cacau nos últimos anos. Segundo ele, o produto chegou a valores que o produtor nunca havia imaginado, alcançando R$ 1.200, mas posteriormente sofreu uma queda expressiva. “Chegou a valores que o produtor nunca nem sonhou. Nunca nem sonhou, acima do sonho. Chegou o cacau a R$ 1.200, é uma coisa maravilhosa. Mas uma coisa é real: é que a gente precisa adotar tecnologia”, disse.

PRODUTOR MAL REMUNERADO

Na sequência, Milton afirmou que a cadeia produtiva vinha avançando no diálogo, mas passou por um momento de forte desequilíbrio na remuneração do produtor. “Eu acho que, na realidade, o que ocorreu é aquela coisa que nós estamos supercaminhando a quilômetros por hora e, de repente, a gente se debateu com uma situação em que o produtor sendo mal remunerado, muito mal remunerado, e a indústria continuou mantendo a sua lucratividade”, declarou.

Para ele, o momento atual deve ser utilizado para que os diferentes segmentos da cadeia produtiva voltem a dialogar. “Eu vejo que o momento é muito adequado para a cadeia se reencontrar”, afirmou.

Milton lembrou ainda que o cacau passou por uma grande variação de preços. Segundo ele, a cotação chegou a cerca de US$ 800 por tonelada e posteriormente alcançou quase US$ 12 mil.

O secretário afirmou que a cadeia produtiva não tinha vivenciado uma oscilação dessa dimensão e comparou o cenário do cacau às mudanças verificadas em outras commodities.

Ele também avaliou que a queda do preço, especialmente a partir de outubro do ano passado, afetou o produtor. Segundo Milton, houve períodos em que o cacau chegou a menos de R$ 200.

Na avaliação dele, uma situação de preços extremos não é positiva nem para o agricultor nem para a indústria, já que o aumento do preço do chocolate pode reduzir o consumo.

Vila Nova citou produtores da Bahia e do Pará e afirmou que houve redução na compra do produto, mencionando também a existência de estoque na indústria. “Eu tô falando dos produtores de cacau da Bahia e os produtores de cacau do Pará, que inclusive no Pará houve uma redução absurda na compra do cacau”, afirmou.

Segundo Vila Nova, a indústria estaria trabalhando com deságio sobre o preço do produto. Para ele, essa prática prejudica diretamente o produtor. “Baseado nisso, a turma trabalha o deságio, que, na minha avaliação, é uma das formas mais humilhantes com o produtor de cacau”, declarou.

Vila Nova afirmou que, embora a situação tenha mudado, a indústria chegou a querer pagar R$ 200 pelo cacau. “Gente, isso não cobre o custo. Pagar algo que não cobre o custo é querer simplesmente liquidar com a lavoura, porque quem é que planta?”, questionou.

Na avaliação do secretário, o problema também está relacionado ao distanciamento que ocorreu entre produtores e indústria. “O que a gente enxerga hoje, é que a indústria vinha caminhando muito próximo do produtor e houve um distanciamento muito grande”, afirmou.

Milton classificou a redução do preço de cerca de R$ 1 mil para R$ 200 como “um esmagamento” e disse que esse tipo de relação não deveria existir em uma cadeia que precisa manter o diálogo. “A voracidade não pode existir dentro de uma cadeia que senta numa mesa para conversar”, declarou.

Ele também apontou a falta de organização dos produtores como um dos fatores que fragilizam o setor. “A falta de união dos produtores de cacau deixou o setor fragilizado, e por conta disso a indústria faz o que quer”, afirmou.

Para Milton, é necessário que os produtores tenham maior organização institucional e que o poder público estabeleça regras capazes de proteger os menores produtores sem criar uma relação de dependência. “O governo precisa ter uma visão de que esse pequenininho precisa virar empresário, tanto quanto existe o grande organizado. A diferença de um e de outro será apenas tamanho, tamanho, tamanho do empreendedor”, disse.

TECNOLOGIA DEPENDE DE RECURSOS

Milton também relacionou a discussão sobre os preços à necessidade de modernização das lavouras. Segundo ele, não é possível exigir a adoção de novas tecnologias sem garantir condições financeiras para os produtores.

Ele afirmou ainda que boa parte dos cacauais da região é antiga e que a modernização ainda alcança uma parcela pequena das áreas.

POLÍTICA AGRÍCOLA

Outro ponto abordado por Milton foi a necessidade de uma política agrícola mais clara e objetiva no Brasil. Para ele, o setor precisa de mecanismos que garantam equilíbrio entre os diferentes segmentos da cadeia produtiva. “A política agrícola é que justamente garante dispositivos para evitar que o grande esmague o pequeno”, afirmou.

O secretário também defendeu uma solução para as dívidas antigas dos produtores de cacau e afirmou que existem casos em que os débitos são superiores ao valor da propriedade.

Milton avaliou que os governos federal e estadual têm feito pouco pelo produtor de cacau e defendeu que uma política agrícola contemple também outras atividades produtivas da região, como seringueira, cravo e pimenta.

EXPOCACAU

Ao final da entrevista, Milton voltou a destacar a importância da ExpoCacau como espaço de apresentação de tecnologias e de aproximação entre os integrantes da cadeia produtiva.

Ele informou que as secretarias municipais de Agricultura e Pesca, Desenvolvimento Econômico e Turismo estão atuando conjuntamente no evento e afirmou que a realização da segunda edição em Ilhéus ocorreu após uma decisão do prefeito Valderico Junior de manter a feira no município.

Segundo Milton, Ilhéus se beneficia com a presença de participantes de diferentes estados produtores de cacau. “A gente chega na feira lá, você encontra pessoas dos diversos estados produtores de cacau. É por isso que eu falo, a gente não pode deixar de ir numa feira tão bem organizada e com uma tecnologia apresentando alternativas para que a gente possa desenvolver nossa região”, afirmou.

O secretário também defendeu que a indústria continue próxima da base produtiva e disse que é necessário encontrar um equilíbrio na distribuição dos resultados da cadeia. “A indústria de cacau no Brasil é muito importante. E Ilhéus foi agraciada com as três grandes indústrias aqui, eu digo, as três maiores indústrias, moem 95% do cacau brasileiro. Então, o que é que a gente precisa? Precisa sentar na mesa e conversar”, declarou.

Para Milton, a recuperação da cacauicultura após décadas de dificuldades exige investimento, modernização e diálogo entre os segmentos. “Essa retomada, e a retomada com modernização, requer investimento. E aí que está o momento para o cacau”, concluiu.

Confira a entrevista completa:

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