NOTA DE ESCLARECIMENTO DO MÉDICO SOBRE MORTE DE EMPRESÁRIA LEVANTA QUESTIONAMENTOS SOBRE CRONOLOGIA E CONDUTA
Defesa do cirurgião plástico Rossini Tebaldi Ruback atribui óbito a reação anestésica rara, mas família aponta falhas no atendimento e na comunicação sobre o ocorrido
A morte da empresária Adriele da Silva Pinto, 31 anos, após se submeter a quatro procedimentos estéticos no Hospital Vida, em Ilhéus (BA), nesta terça-feira, 26 de agosto, ganhou novos contornos com a divulgação de uma nota oficial da assessoria jurídica do médico responsável, Dr. Rossini Tebaldi Ruback.
O documento atribui o falecimento a um caso de hipertermia maligna — reação grave e imprevisível a agentes anestésicos — e nega que o médico tenha abandonado o atendimento. No entanto, a cronologia dos fatos apresentada pelo advogado da família, Dr. Nery Santana, em entrevista ao programa O Tabuleiro, do comunicador Vila Nova, revela inconsistências que colocam em xeque a versão da defesa.
Segundo o advogado da família, Adriele chegou ao hospital por volta das 7h30 da manhã e deu entrada no centro cirúrgico às 10h, com previsão inicial de que os procedimentos fossem concluídos às 15h. Ao longo do dia, a família foi informada de sucessivos adiamentos: primeiro, o término foi empurrado para as 18h, depois para as 20h.
A partir das 20h, os familiares deixaram de receber qualquer informação sobre o estado de saúde da paciente. Segundo Nery, a comunicação do falecimento ocorreu somente após a meia-noite, quando um membro da equipe informou à tia de Adriele que a empresária havia morrido.
A nota da defesa afirma que, "concluídos os procedimentos assistenciais e adotadas todas as providências devidas, sobreveio no local o grave episódio de violência e depredação", e que o Dr. Rossini e a equipe foram orientados pelo setor de segurança a se proteger em local seguro até a chegada da Polícia Militar.
No entanto, o advogado da família afirma que o tio da vítima só chegou ao hospital depois da meia-noite, ao ser acionado pela tia, que estava impedida de deixar a unidade. Ao chegar e não conseguir acesso, o familiar teria quebrado uma porta de vidro para entrar, momento em que encontrou a sobrinha já morta dentro de um saco para cadáveres.
A pergunta que fica é: se o episódio de violência só ocorreu depois da meia-noite, em que momento exato a equipe médica deixou o local? E por que o médico não estava presente para prestar esclarecimentos à família quando o tio chegou?
A nota sustenta que a paciente apresentou sinais compatíveis com hipertermia maligna, uma condição rara desencadeada por agentes anestésicos, e que a medicação específica foi administrada.
A literatura médica, porém, indica que a mortalidade por hipertermia maligna caiu de cerca de 80% para menos de 5% com o uso do antídoto (Dantroleno), mas cada 10 minutos de atraso na administração aumenta significativamente o risco de complicações. Estudos mostram que o intervalo entre o primeiro sinal e a administração foi de 100 minutos em pacientes que morreram, contra 45 minutos nos que sobreviveram.
A nota não esclarece se o hospital dispunha do antídoto imediatamente disponível no centro cirúrgico, nem em quanto tempo a medicação foi administrada após os primeiros sintomas.
A nota também silencia sobre o histórico profissional do médico. Em 2023, o Dr. Rossini Tebaldi Ruback foi alvo de denúncias de pacientes de Itabuna, Salvador, Eunápolis e Vitória da Conquista, que relataram complicações e deformidades após procedimentos cirúrgicos.
Uma das pacientes afirmou ter desenvolvido infecção grave após colocar próteses de silicone e precisou passar por cirurgia de reparação. Uma instrumentadora cirúrgica que trabalhou com o médico também apresentou denúncias contra ele naquele período.
O Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) informou que não há processo atual contra o médico, mas que os resultados das denúncias anteriores foram comunicados às partes e estão sob sigilo.
A nota de esclarecimento cumpre o papel de apresentar uma versão tecnicamente embasada para a morte da paciente, mas deixa sem resposta questões fundamentais:
1. Por que a cirurgia durou muito mais do que o previsto — iniciada às 10h, com término estimado para as 15h, mas se estendendo até pelo menos as 20h?
2. Por que a família foi mantida sem informações por horas, entre as 20h e a meia-noite, enquanto a paciente já estava morta?
3. Em que momento exato a equipe deixou o hospital e por que não estava presente para falar com os familiares antes da chegada do tio?
4. O hospital dispunha de Dantroleno no centro cirúrgico e em quanto tempo a medicação foi administrada?
5. Por que o atestado de óbito não foi assinado pelo médico responsável pela cirurgia?
A apuração das autoridades competentes — Polícia Civil, Ministério Público e Conselho Regional de Medicina — será essencial para determinar se houve negligência, imprudência ou imperícia no atendimento à empresária.
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