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SAÚDE MENTAL EXIGE ATENÇÃO DIÁRIA E NÃO DEVE SER DISCUTIDA APENAS EM SETEMBRO, ALERTA TERAPEUTA

SAÚDE MENTAL EXIGE ATENÇÃO DIÁRIA E NÃO DEVE SER DISCUTIDA APENAS EM SETEMBRO, ALERTA TERAPEUTA
Por: Redação O Tabuleiro
Dia 11/09/2026 16h35

Pricilá Martins destacou, em entrevista ao programa O Tabuleiro, a importância da sociabilização, do acompanhamento profissional, de hábitos saudáveis e de ações de prevenção ao longo de todo o ano

Durante entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, nesta sexta-feira (11), a terapeuta e neurocientista Pricilá Martins falou sobre saúde mental e os diferentes fatores que podem contribuir para o sofrimento psicológico. A conversa ocorreu no contexto do Setembro Amarelo e abordou desde o isolamento e os pensamentos repetitivos até a necessidade de acompanhamento profissional.

Questionada sobre o que estaria acontecendo com a saúde mental das pessoas, diante de situações como depressão, isolamento e dificuldade de comunicação, Pricilá explicou que existem diferentes causas e apresentou os pilares que considera fundamentais para a saúde mental. “Eu trabalho com seis pilares da saúde mental. Na verdade, não é uma ideia minha, é uma ideia científica. Eles mostraram que existem cinco pilares essenciais para a saúde mental. Eu acrescento um, que é o autoconhecimento”, afirmou.

Segundo a terapeuta, de maneira simples, a saúde mental pode ser entendida como o bom funcionamento do cérebro. Entre os aspectos citados por ela está a sociabilização. Pricilá explicou que estar com outras pessoas é importante, mas ponderou que nem toda forma de convivência é necessariamente saudável. “Às vezes tem pessoas que se trancam, mas tem pessoas que sociabilizam, mas essa forma de sociabilizar também não faz bem. E também tem hora que você pode estar com muita gente, possa ser que tenha alguém que esteja passando por isso, que está com muita gente, mas ela não está se sentindo bem, ela se sente invisível”, explicou.

Ainda segundo Pricilá, mesmo quando uma pessoa se sente sozinha apesar de estar cercada por outras, esse contato pode ser importante para evitar um isolamento completo. “Quando a gente está completamente isolado, com pensamentos repetitivos e, às vezes, catastróficos, é como se fosse um disco rodando arranhado”, comparou. Para ela, esse processo pode fazer com que os mesmos pensamentos, questionamentos ou preocupações retornem constantemente, sem que a pessoa consiga enxergar o futuro de forma clara ou esperançosa.

GATILHOS E A IMPORTÂNCIA DA AJUDA PROFISSIONAL

Ao ser questionada sobre os chamados gatilhos que fazem a pessoa retornar constantemente a situações ou pensamentos que causam sofrimento, Pricilá destacou a importância da busca por profissionais especializados.

Ela comparou o cuidado com a saúde mental ao tratamento de problemas físicos. “Se a gente tem uma arritmia, uma palpitação, você vai procurar um médico, um cardiologista. Se a gente quebra a perna, a gente vai fazer o quê? Ortopedista”, afirmou.

Para a terapeuta, ainda existe resistência em procurar ajuda para questões relacionadas à saúde mental. “As pessoas têm dificuldade de procurar um médico psiquiatra ou uma terapia. Por quê? Tem avançado muito, mas ainda vem essa história de que ‘eu estou louco’, ‘eu tenho vergonha’, ‘eu vou dar conta sozinho’. Então isso já é um problema”, disse.

Pricilá explicou que algumas pessoas conseguem identificar os próprios gatilhos, enquanto outras precisam de auxílio para reconhecer o que desencadeia determinados pensamentos e comportamentos. “Tem pessoas que vão identificar qual é o gatilho, tem pessoas que não vão identificar quais são esses gatilhos. E isso vai continuar acontecendo na vida da pessoa e ela vai precisar de um profissional para ajudar, para orientar, para identificar quais são esses gatilhos”, afirmou.

Ela também ressaltou que existem situações nas quais pode ser necessária uma intervenção medicamentosa.

PROFISSÕES EM ESTADO DE ALERTA

Na sequência, a entrevista abordou profissionais que convivem diariamente com situações de risco, como policiais, que podem sair de casa sem saber se voltarão em segurança.

Pricilá concordou que existem profissões mais delicadas, mas afirmou que, atualmente, todos estão sujeitos a diferentes níveis de alerta. No caso dos policiais, segundo ela, esse estado ocorre de forma contínua. “Claro que o policial vai estar em estado de alerta, tudo pode acontecer ali naquele momento. E, no caso dele, são todos os dias. Então a gente chama de um processo crônico, ele passa por aquele processo todos os dias”, explicou.

A terapeuta relacionou esse estado constante de alerta ao funcionamento da amígdala, estrutura relacionada às emoções. Ela também chamou atenção para hábitos que podem agravar esse quadro, citando o consumo de álcool, jogos e outros tipos de vício. “Se a pessoa vive nesse estado de alerta e tem, como eu falei, não corrobora o estilo de vida dela, ela está inflamando o corpo e o cérebro”, afirmou.

Pricilá também destacou a importância da nutrição e da hidratação. Segundo ela, não se trata apenas de alimentação, mas de oferecer ao organismo nutrientes adequados para o funcionamento do cérebro. “Seu corpo não é só alimentado, ele precisa estar nutrido de bons nutrientes que possam fazer bons nervos cranianos, de transmissores para fazer boas conexões neurais no seu cérebro”, explicou.

Para ela, além de saber o que precisa ser feito, muitas pessoas enfrentam dificuldades para transformar esse conhecimento em hábitos. “Tem coisa que a gente sabe o que fazer, mas não faz. Aí tem outro ponto de interrogação, outro mistério”, afirmou. Nesse contexto, ela voltou a destacar a importância do acompanhamento profissional para estabelecer hábitos positivos e trabalhar a interrupção de comportamentos viciosos.

A terapeuta também relacionou a saúde mental às experiências pessoais, ao ambiente frequentado e às situações às quais cada indivíduo é exposto. “É um quebra-cabeça que a gente precisa montar junto”, disse.

Pricilá reforçou ainda que a terapia e o acompanhamento psiquiátrico podem atuar de maneira conjunta. Segundo ela, a medicação pode ser necessária em determinadas situações para reduzir o sofrimento, enquanto a terapia pode contribuir para compreender questões relacionadas aos gatilhos e à origem do sofrimento.

VÍCIOS, JOGOS E O IMPACTO NO SONO

A entrevista abordou também as chamadas “fugas”, como o alcoolismo e os jogos, especialmente diante da facilidade de acesso por meio do celular.

Pricilá acrescentou às situações citadas também o comportamento de compras e lembrou que ele pode provocar endividamento. Ela contou ter ouvido relatos de pessoas que acompanham promoções durante a madrugada, relacionando esse comportamento também ao prejuízo do sono. “O sono também é outro pilar da saúde mental, porque durante nosso sono nosso cérebro se regenera de alguma forma”, explicou.

Segundo ela, o cérebro permanece ativo durante o sono e esse período é importante para a preparação para o dia seguinte. “Eu pergunto muito com meus pacientes: que horas o seu dia começa?”, relatou. Para Pricilá, a preparação para o dia seguinte começa ainda antes de dormir.

Ao comentar os jogos, a terapeuta demonstrou preocupação com a forma como as possibilidades de apostas vêm sendo apresentadas. “Esses dias eu estava assistindo televisão com a minha filha, e aí veio uma publicidade que eu fiquei impressionada”, contou. Ela relatou ter visto uma publicidade relacionada à possibilidade de apostar em diferentes elementos de uma partida, além do resultado. “Esttá piorando a vida dessas pessoas que têm essa questão, esse distúrbio, digamos assim, esse vício”, afirmou.

SETEMBRO AMARELO NÃO DEVE SER O ÚNICO MOMENTO DE FALAR SOBRE SAÚDE MENTAL

Ao longo da entrevista, Pricilá destacou que a discussão sobre saúde mental não deveria ficar restrita ao mês de setembro. “Eu acho que, obviamente, o Setembro Amarelo é extremamente importante. Mas ele não começa hoje, ele não começa em setembro”, afirmou.

A terapeuta citou também o Janeiro Branco e defendeu que a atenção à saúde mental seja mantida durante todo o ano. “Eu digo que o Janeiro Branco começa 1º de janeiro e ele é 365 dias. Ou 366”, disse.

Para Pricilá, falar continuamente sobre saúde mental é necessário porque os problemas não surgem de uma hora para outra. “Essas coisas são graduais, elas vão acontecendo. Por incrível que pareça, o nosso estilo de vida influencia muito nisso. A rotina, como a gente escolhe, também influencia”, afirmou.

Ela ponderou, porém, que nem sempre a pessoa consegue fazer essas mudanças sozinha. “Não é só escolher, é sustentar”, disse.

A terapeuta comparou o cuidado com a saúde a outras conquistas da vida para destacar a necessidade de manutenção constante. “A saúde também é isso. A saúde é uma escolha diária. Todo dia a gente pensa um pouco nisso”, afirmou.

Pricilá também chamou atenção para o ritmo acelerado da sociedade e para o impacto das redes sociais. Na avaliação dela, o tempo de exposição às telas e o contato constante com conteúdos que estimulam comparações e buscam chamar a atenção podem contribuir para esse cenário. “As redes sociais, que para mim têm sido também uma grande vilã nisso tudo”, declarou.

Ela explicou que, mesmo quando as pessoas sabem que aquilo que veem nas redes não representa necessariamente toda a realidade de alguém, a exposição visual ainda produz impacto. “Nós somos visuais também. A visão é um campo de informação, é uma entrada. Então você olha aquilo ali”, afirmou.

Pricilá também mencionou o uso de determinadas palavras e estratégias em conteúdos divulgados na internet como possíveis gatilhos para chamar a atenção das pessoas e estimular respostas rápidas.

Para ela, o debate sobre saúde mental também precisa considerar a prevenção e o acesso à informação. A terapeuta avaliou que, antes de uma pessoa procurar atendimento, é necessário que ela reconheça a importância de buscar ajuda. “Para a pessoa chegar a ir lá, ela precisa ter essa informação e ela precisa se conscientizar disso”, afirmou.

Pricilá destacou que, mesmo quando existem serviços e possibilidades de atendimento, a dificuldade pode estar justamente em fazer com que a pessoa reconheça a necessidade de procurar ajuda.

Na avaliação da terapeuta, esse trabalho precisa começar antes que o problema esteja instalado. Ela defendeu que temas como saúde mental sejam trabalhados também em espaços como as escolas, envolvendo professores e crianças.

Confira a entrevista completa:

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