SINDICATO DOS BANCÁRIOS MANTÉM EXPECTATIVA POR AVANÇO NAS NEGOCIAÇÕES COM A CAIXA
Rodrigo Cardoso afirma que retorno da direção à mesa de negociação abre possibilidade para construção de uma saída
O retorno da Caixa Econômica Federal à mesa de negociação alimenta a expectativa dos trabalhadores por um avanço nas discussões que envolvem o plano de saúde dos empregados. Em entrevista ao programa O Tabuleiro, da Rádio Ilhéus FM, nesta quarta-feira (16), o dirigente do Sindicato dos Bancários de Ilhéus, Rodrigo Cardoso, afirmou que a categoria espera que a retomada do diálogo possa contribuir para a construção de uma solução para o impasse.
Segundo Rodrigo, até a última sexta-feira, a direção da Caixa sinalizava que poderia encerrar as negociações e ingressar com um dissídio na Justiça. Depois de novas interlocuções, porém, a empresa informou que retornaria à mesa de negociação. “Então, temos uma esperança de que a gente possa ter pelo menos um nível de diálogo que possa apontar para a construção de uma saída”, afirmou o dirigente.
O principal ponto de divergência, de acordo com Rodrigo, está relacionado ao plano de saúde dos trabalhadores da Caixa. Ele explicou que os custos na área da saúde aumentaram e que as empresas públicas também enfrentam dificuldades para manter o custeio dos benefícios diante das limitações estabelecidas para as estatais.
Rodrigo lembrou que, anteriormente, a Caixa custeava 70% do valor do plano de saúde, enquanto os empregados contribuíam com 30%. Segundo ele, as limitações impostas fizeram com que a empresa passasse a apresentar propostas para elevar a participação dos trabalhadores no pagamento do benefício.
A proposta apresentada neste ano, conforme explicou, prevê uma mudança significativa na forma de contribuição. Atualmente, o valor considera a renda dos funcionários, mas a proposta apresentada pela Caixa prevê que a contribuição passe a variar de acordo com a idade.
Para Rodrigo, a mudança gera preocupação porque a contribuição aumentaria justamente à medida que os trabalhadores envelhecem. “A gente sabe como é nosso ciclo de vida: quando é mais jovem, a doença é bem normal, vai chegando a idade, vai adoecer mais, é da biologia humana. Então, quando mais o cidadão precisa, aí é que vai começar, vai aumentando nessa proposta que a Caixa colocou, as contribuições”, afirmou.
O dirigente também relacionou a discussão sobre o plano de saúde ao reajuste salarial conquistado pela categoria na negociação nacional dos bancários. Segundo ele, os trabalhadores obtiveram aumento de 0,6% acima da inflação do período.
Rodrigo avalia que, caso a proposta de mudança no plano de saúde seja aprovada, o reajuste poderá ser absorvido pelo aumento da contribuição. “O cidadão vai ter 0,6% de aumento do salário e a contribuição vai engolir tudo. É um esforço para aumentar o salário e vocês vão estar trabalhando para o plano de saúde”, declarou.
IMPACTO SOBRE OS SERVIÇOS À POPULAÇÃO
Durante a entrevista, Rodrigo também destacou a importância da Caixa Econômica Federal para a população brasileira. Segundo ele, programas e serviços como Bolsa Família, Seguro-Desemprego, financiamento imobiliário, Minha Casa Minha Vida e financiamento de obras públicas passam pela operacionalização do banco.
Por isso, o dirigente defende que o impasse seja analisado também sob a perspectiva dos usuários dos serviços da Caixa.
Ele citou, por exemplo, pessoas que recebem o Bolsa Família e podem precisar comparecer a uma agência para solucionar problemas relacionados ao cartão. Também mencionou clientes que possuem financiamento imobiliário e que podem ter negociações interrompidas diante da falta de atendimento. “Então a gente sabe que tem prejuízo para a população”, afirmou.
Nesse contexto, o sindicato tem buscado interlocução com o governo federal. Rodrigo afirmou que foram feitos contatos com o ministro Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, e com o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães.
Ele também citou os deputados federais Alice Portugal, Daniel Almeida e Jorge Solla como parte das articulações para tentar construir uma solução para o impasse.
Rodrigo ressaltou, porém, que a Caixa também precisa ter sustentabilidade financeira. “A Caixa é uma empresa que, portanto, precisa obviamente ter lucro, mas tem que se levar em consideração que não é uma empresa qualquer. É uma empresa que presta muito serviço para a sociedade, em especial para o povo mais pobre”, afirmou.
GREVE É APRESENTADA COMO ÚLTIMO RECURSO
Questionado sobre a paralisação, Rodrigo afirmou que a greve não foi a primeira opção da categoria. “Greve nunca é assim a primeira alternativa, greve é a última. É quando a gente já não conseguiu, ao longo de meses de negociação, chegar a uma solução minimamente satisfatória”, explicou.
Segundo o dirigente, havia muitos anos que os bancários não realizavam uma greve dessa dimensão. Ele afirmou que o impasse envolvendo o plano de saúde acabou levando os trabalhadores à paralisação.
Rodrigo também afirmou que o movimento tem apresentado adesão próxima de 100% na Caixa e que as agências da instituição estão fechadas no país.
Apesar do cenário de conflito, ele destacou a expectativa de que o retorno das negociações possa abrir espaço para uma solução. Ao falar sobre a campanha salarial da categoria, citou o lema: “Movidos pela luta, alimentados de esperança”.
NEGOCIAÇÃO COM BANCOS PRIVADOS
Vila Nova também questionou Rodrigo sobre a relação do Sindicato dos Bancários com instituições privadas, como Bradesco e Itaú.
O dirigente explicou que a negociação da convenção coletiva dos bancários também envolveu diversas rodadas de discussão. Segundo ele, a pauta foi entregue no fim de junho e a negociação foi concluída no fim de agosto.
Entre os pontos mencionados estão medidas de proteção para pessoas com deficiência. Rodrigo citou uma cláusula que prevê uma folga para que o trabalhador possa acompanhar atendimento médico ou terapia.
Ele também mencionou uma gratificação específica nos bancos públicos para pais com filhos com deficiência.
Outro avanço apontado foi a ampliação da licença-paternidade, que, segundo Rodrigo, passou de 10 para 30 dias.
Na questão salarial, o dirigente afirmou que a categoria buscou recompor a inflação do período e obter aumento real. Segundo ele, foi conquistado um aumento real de 0,6%, e a proposta foi aprovada pelos trabalhadores.
TRABALHADORES DOS BANCOS DIGITAIS
Durante a conversa, Vila Nova levantou ainda uma questão relacionada ao crescimento dos bancos digitais. O comunicador perguntou se os profissionais que trabalham nessas instituições, mesmo sem a existência de agências físicas, são considerados bancários.
Rodrigo confirmou que sim. Segundo ele, esses trabalhadores estão submetidos à convenção coletiva da categoria.
O desafio, explicou, está na organização sindical. Alguns bancos possuem telecentros, enquanto outros contam com uma parcela significativa de trabalhadores em home office, o que dificulta o contato dos sindicatos com esses profissionais.
Vila Nova questionou se existem campanhas para aproximar esses trabalhadores da organização sindical.
Rodrigo explicou que, em Ilhéus, não existe esse setor, já que os bancos digitais geralmente têm suas sedes em São Paulo. Ele acrescentou que muitos desses profissionais trabalham na área de tecnologia.
O dirigente reconheceu que a organização sindical desse grupo ainda representa um desafio. “Eu sinceramente também posso lhe dizer que acho que é um desafio que o sindicato não conseguiu ainda dar conta”, afirmou.
Rodrigo voltou a destacar que, legalmente, esses trabalhadores são bancários e estão submetidos à convenção coletiva, embora a dificuldade de organização seja, segundo ele, concreta.
Ao abordar o crescimento dos bancos digitais, citou o Nubank como exemplo e afirmou que a instituição já possui um faturamento que rivaliza com o dos grandes bancos tradicionais.
Rodrigo também relacionou esse crescimento a um processo de desregulamentação do sistema financeiro no Brasil. Segundo ele, a mudança teve como aspecto positivo o aumento do acesso, mas também trouxe consequências relacionadas à redução de critérios, responsabilidades e obrigações para a criação de instituições financeiras.
Confira a entrevista completa:
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