ALTOS PREÇOS E "PROFANAÇÃO" DURANTE ROMARIA AFASTAM FIÉIS: ROMEIROS BAIANOS TROCAM BOM JESUS DA LAPA POR APARECIDA DO NORTE
O principal gargalo apontado pelos romeiros é o custo elevado para participar das festividades
O crescimento do turismo religioso em Aparecida (SP) contrasta com a insatisfação de visitantes em Bom Jesus da Lapa (BA), que relatam priorizar o santuário paulista em busca de mais silêncio, organização e preços justos.
O perfil do romeiro brasileiro está mudando. Cada vez mais, fiéis da Bahia que tradicionalmente seguiam em direção ao Santuário de Bom Jesus da Lapa, no oeste do estado, têm desviado sua rota de fé para Aparecida, no interior de São Paulo. O motivo? Uma combinação de fatores que vai da estrutura de acolhimento ao comportamento de outros visitantes durante as celebrações religiosas.
O Site OTabuleiro apurou que enquanto o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida consolida números recordes — recebendo mais de 10,48 milhões de peregrinos em 2025, um aumento de 15% em relação ao ano anterior —, a cidade baiana enfrenta críticas recorrentes que têm afugentado os devotos. O principal gargalo apontado pelos romeiros é o custo elevado para participar das festividades. Em Bom Jesus da Lapa, os preços dos serviços de hospedagem, alimentação e transporte ficaram salgados, tornando a viagem financeiramente inviável para muitas famílias que antes faziam questão de comparecer à romaria de agosto.
Além da questão econômica, há um desconforto de ordem espiritual. Segundo relatos de frequentadores, o período da romaria do Bom Jesus, no mês de agosto, tem sido marcado por uma "farra profana". Ruas tomadas por pessoas que, apesar de estarem na cidade durante a celebração religiosa, não participam de nenhuma missa, transformando o ambiente de devoção em cenário de algazarra e consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Para os romeiros que buscam recolhimento e oração, a presença desse público é um incômodo crescente.
O contraste com Aparecida é apontado como decisivo na troca de destino. Uma religiosa natural de Itabuna (BA), que recentemente retornou de uma excursão ao santuário paulista, fez questão de registrar a diferença: “Em Aparecida eu não vi algazarra nem bebedeira, que encontrei em Bom Jesus da Lapa”, disse a devota, expressando o sentimento de um grupo cada vez maior de católicos baianos.
Enquanto Bom Jesus da Lapa enfrenta o desafio de equilibrar o comércio local com a sacralidade do espaço e lidar com o turismo de massa que foge ao propósito religioso, Aparecida se fortalece justamente no oposto. A cidade paulista não apenas recebe milhões de fiéis, mas também oferece uma infraestrutura de respeito à liturgia e ao silêncio, além de investir pesado no acolhimento.
Prova desse investimento é a sanção da Lei estadual n. 18.388, que cria oficialmente a Região Turística da Fé no Vale do Paraíba, reconhecendo o potencial econômico e cultural do turismo religioso e integrando cidades como Aparecida, Guaratinguetá e Cachoeira Paulista .
Para especialistas em turismo religioso, o fenômeno observado entre os baianos é um alerta. “O romeiro atual não aceita mais pagar caro para ser maltratado ou para ter sua experiência de fé atrapalhada. Ele pesquisa e vai onde se sente acolhido, tanto no bolso quanto na alma”, avalia um analista de turismo.
A expectativa é que o fluxo de baianos para Aparecida continue crescendo, especialmente com a consolidação de novas rotas e a melhoria da infraestrutura de acesso. Bom Jesus da Lapa, por sua vez, precisará encontrar um equilíbrio para não ver seus fiéis trocarem a romaria do Bom Jesus pela paz encontrada aos pés da padroeira do Brasil.
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